Neste Tempo de Cólera faz uma homenagem a Carlos Drummond de
Andrade (1902-1987) com o poema “Drummond”, cujos versos são formados por 20
títulos de livros do poeta itabirano. O poema “Apagão” é dedicado ao famoso
poema “José”. O poema “Persona” faz referência ao poeta gauche e, além disso, a ideia de fazer o “Poema-Orelha” foi
inspirada pela orelha do volume Poemas
de 1959.
Neste Tempo de Cólera encerra uma trilogia poética. O livro segue a
mesma toada da poesia social, ao apresentar poemas como “Neste Tempo de
Cólera”, “O Grito”, “Jornal” e “Esperança”, que retratam a atualidade e o
conflito político em voga no país.
Poema-Orelha
O
leitor espreita o livro.
A
orelha sussurra palavras.
Surpresa!
Emerge uma voz.
O
poeta muito revela, mas
algo
ainda segue oculto.
O
vasto ambiente, habitado
por
poemas, retrata a
inquietação
e o dia a dia.
Convencer
não busca,
mas
reflexão provoca.
A
vida é uma travessia,
assim
confessa o vivido
do
Refúgio da madrugada,
Em meio à tempestade,
Neste Tempo de Cólera.
Fecha
a trilogia escrita,
mas
ainda fica na escuta
se
haverá a sua leitura.
Neste
Tempo de Cólera
Sumário
Instante
Apagão
A
Rosa Oculta
Revelação
Neste
Tempo de Cólera
O
Grito
Perspectiva
Promessa
Jornal
Drummond
Poesia
Marginal
Esperança
Separação
À
meia-luz
A
Persistência da Memória
Fait Divers
Tempo
Incerto
Persona
Mariana
Diálogo
Íntimo
Tabuleiro
da Vida
Instante
Somos
um instante no infinito,
ao
acordar no mesmo dia e
ao
ficar sentados frente à tela,
sem
a aventura do desconhecido,
no
dia atemporal já programado.
Fazendo
o que quiser, sempre igual,
seguindo
o mesmo caminho.
A
sensação de vida nos deixa
desconectados,
vivendo vidas alheias.
A
realidade cotidiana distraída
pela
celebridade construída.
Nosso
tempo é consumido como
combustível,
sem ser assumido.
Já
esgotados, não somos nós
mesmos.
Nossas máscaras são
rostos
do passado, esculpidos
nas
pedras do esquecimento.
Ignoramos
as pequenas coisas,
os
olhares sem conexão virtual.
Como
seguidores, não lideramos
e
nem escrevemos a própria história.
Apagão
Para
José
E
agora?
A
rede caiu,
a
luz apagou,
a
conexão sumiu.
E
agora?
Escreve
anônimo,
zomba
dos outros,
odeia
e protesta?
E
agora?
Está
sem celular,
está
sem mensagem,
está
sem vida,
já
não pode compartilhar,
já
não pode curtir,
xingar
já não pode,
não
veio a energia
e
tudo acabou.
E
agora?
E
agora?
Sozinho
no escuro,
sem
nada a fazer,
sem
parede
para
se encostar,
sem
distração
que
fuja da realidade,
você
vai para onde?
A Rosa Oculta
Sem
saudade e sem remorso,
da
tua ausência ao meu redor,
não
tenho pena de mim, ou outros sentimentos.
Do
amor triste, ficou só a perda,
assim
como do passado, só o carinho.
As
raízes fundas de sofrimento
mergulharam
no infinito.
Ao
vencer a dor, permaneceu
presente
um perfume oculto:
a
beleza no jardim da natureza.
Revelação
Eu
preparo um verso
ao
caminhar por palavras
que
distribuem segredos.
Não
posso forçar a chave.
Devo
permanecer com rosto
neutro,
mas chego mais perto
para
contemplar sua forma.
A
melodia refugia-se
no
conceito e impregna
o
poder das palavras.
Não
posso obrigar o poema
diante
do poder do silêncio,
mas
revelo sua forma
no
espaço em branco.
Neste Tempo de Cólera
Neste
tempo de cólera,
o
ar contamina o pensamento.
O
pacífico conflito de opiniões
torna-se
um bélico confronto de ideias.
O
isolamento piora a cabeça, pois
não
recebe anticorpos da tolerância.
Doses
homeopáticas de informação formam
o
pensamento crítico e ampliam o conhecimento.
A
divergência é saudável. O sectarismo, doença.
Poeta
sem gênero, assim como anjo,
busca
a voz interior para o debate.
O
ouvir introspectivo ajuda
mais
do que o falar extrovertido.
O Grito
Ouve-se
grito na rua
Ouve-se
grito em casa
Ouve-se
grito no trânsito
Ouve-se
grito na audiência
Ouve-se
grito na rede social
Ouve-se
grito na imprensa
Ouve-se
grito no plenário
Ouve-se
grito no debate
Ouve-se
grito no templo
Fala-se
alto na sociedade do grito.
Fere-se
o diálogo, ofende-se a razão.
Desnudar-se
do preconceito
é
ouvir o outro, pausa no silêncio do diálogo.
A
primeira pedra da filosofia é o silêncio.
Querer
convencer com a verdade,
impô-la
como socos, deixa a razão
humilhada,
em inútil tiroteio verbal.
A
poluição sonora perturba a mente.
A
incerteza gera desejo de compartilhar.
A
intransigência, a caça às bruxas.
Serve
de escudo da insegurança,
diante
do medo da reflexão.
As
mãos apoiam o rosto como numa pintura.
Perspectiva
Tendo
estado ocupado,
desce
pelos dedos
um
tempo branco.
As
coisas e as palavras
seguem
o mesmo ritual.
A
noite e as casas dormem.
O
sono não vem, mas o dia volta.
Abrir
os olhos não é segredo.
Mudança
oculta na realidade,
esconde-se,
não corre risco.
Problema
na infinitude
diante
da vida finita.
Engano
de perspectiva
seguir
apenas o seguro.
Promessa
Para
A. C. Secchin
Não
tenho palavras para verso.
Dez
sílabas dizem alguma coisa.
Corto
e reflito, mas não impeço
que
esta quadra seja imprecisa.
Devo
buscar toda a seriedade,
mas
a poesia tende a ser terna.
Procura
a rima na eternidade,
no
escuro, ao segurar a lanterna.
Falar
alguma coisa que queria,
mas
fatos, se impondo ao poeta,
deixam
o desencanto na poesia.
Não
há tempo, nem por decreto,
para
terminar o oculto na gaveta,
nem
chave para fechar o soneto.
Jornal
Contemplo
páginas e pensamentos,
um
ritual diário que me desloca
para
junto da janela do mundo,
pela
qual vejo acontecimentos.
Das
cinzas do passado
emergem
consequências,
não
há como negá-las
e
muito menos evitá-las.
Os
olhos do cinzeiro são cinza
como
a realidade do mundo.
A
brasa que queima mostra
focos
de incêndio no dia a dia.
Recortes
feitos podem induzir a
interpretação,
assim como a falta
de
informação prejudica o julgamento.
Mas
a omissão dos fatos é tão grave
quanto
a ausência completa de ação.
Drummond
Há
um claro enigma
no
sentimento do mundo,
ao
escrever alguma poesia
neste
brejo das almas,
cuja
rosa do povo
está
na viola de bolso.
Escrever
novos poemas,
a
partir da lição de coisas,
é
a vida passada a limpo
e
a visita na paixão medida.
José,
menino antigo,
é
com o corpo que
amar
se aprende amando,
o
amor natural, apesar
das
impurezas do branco.
Esquecer
para lembrar,
numa
reunião,
a
falta que ama.
Poesia Marginal
Vários
poetas, como Chacal,
estavam
fora do meio habitual,
não
escreviam no molde estrutural
estabelecido
pelo padrão universal.
Procuravam
uma poesia autoral,
ao
não escrever da maneira usual.
Buscavam
a linguagem coloquial
e
mostravam uma inovação vital.
Produção
poética com criativo visual,
durante
metamorfose comportamental,
resultado
de ruptura estética e cultural.
Faziam
só divulgação manual,
neste
difícil período editorial,
refletindo
uma pressão social.
Esperança
Para
Augusto dos Anjos
A
esperança não cansa e não sucumbe,
vê
sonhos e muita gente infeliz.
Da
ilusão do mundo, não espera solução,
mas
nas asas e no grito
enfrenta
desalento e tormento,
não
aceita sua morte na sentença.
Brada
viva à glória futura da bendita crença.
Separação
Para
Ana Cristina Cesar
Abro
as cortinas.
Palpito
as novidades.
A
janela aberta,
como
transparente escuridão,
forma
sombra no papel.
Não
toco na lembrança,
as
cartas não mentem,
são
espelhos da saudade.
A
mão desliza e
a
folha cai no chão.
O
ar duro manobra
uma
adivinhação.
Não
quero a canção.
À meia-luz
Navegamos
sem direção se uma
bruma
beber todo o horizonte.
O
poeta inveja a gaivota que
observa
tudo do mar, abaixo
da
luz e no alto do céu.
Não
há como boiar sem a chance
de
mergulho, ou fazer um rasante
em
profundidade à beira do abismo
da
alma. Refletir, no espelho do mar,
o
sentimento daquilo que nos falta e
corta
a distância em direção ao infinito.
A Persistência da Memória
Não
tenho o sorriso da Monalisa
Não
tenho o brinco de pérola de Vermeer
Não
tenho o beijo de Gustav Klimt
Não
tenho as meninas de Velázquez
Não
tenho o almoço de Gustave Renoir
Não
tenho o baralho de cartas de Cézanne
Não
tenho a tarde de domingo de Seurat
Não
tenho as impressões de Claude Monet
Não
tenho a maçã frente ao rosto de Magritte
Não
tenho o grito de Edvard Munch
Não
tenho a noite estrelada de Van Gogh
Não
tenho a última ceia de Da Vinci
Tenho
apenas o tempo derretido de Dalí,
pois
caminho sobre o mar de névoa de Friedrich.
Fait
Divers
Tombou
ladeira abaixo na curva da estrada. A carga embalada esparramou-se pelo áspero
asfalto. Decepção das pessoas, nada para ser saqueado. Havia apenas informações
e conhecimentos esparsos, em livros que ficaram abandonados ao relento e depois
à chuva, por falta de atenção e de interesse. A pequena nota no jornal relatava
o ocorrido, mas utilizando uma expressão francesa.
Tempo Incerto
Há
uma dor no viver.
Do
concreto da realidade
surge
a consciência do limite.
Explicações
vagas e circunstanciais
procuram
o seu destino.
As
inquirições sem respostas
e
as mensagens criptografadas
vestem
a nova realidade.
A
linguagem oculta encontra
motivo
até mesmo no silêncio.
Os
gestos reduzem o retrato da realidade
como
espelhos dos acontecimentos.
Descoberto
o sentido do absurdo da existência.
Persona
O
antigo poeta anárquico
se
disfarça, durante o dia,
como
funcionário autárquico
ao
escrever apenas o que podia.
Não
há como ser profeta
do
que ocorre no dia a dia,
mas
reflete e depois panfleta,
à
noite, ao escrever o que queria.
Mariana
No
fato
do
ato
sem
trato
Desa
b
a
mento
mostra retrato
não do acaso
mas do descaso
Diálogo Íntimo
O
poeta procura no dia
nos sonhos
no
silêncio
nas
palavras
nos
pensamentos
Entre
dois versos
de um poema
sentimentos
Tabuleiro da Vida
As
peças saem da caixa.
Cada
uma toma o seu lugar.
Joga-se
de acordo com as regras.
Cada
uma tem seus movimentos,
suas
qualidades e seus defeitos,
suas
virtudes e suas limitações.
Falta
de entrosamento prejudica desenvolvimento.
Há
livre arbítrio, mas limitado pelas circunstâncias.
Pensar
em sacrifícios e antever o desdobramento.
Harmonia
permite qualidade e ganho de tempo.
Dá
muitas opções no início da jornada,
algumas
possibilidades na metade da travessia,
mas
há poucas escolhas no final do jogo.
Ao
fim e ao cabo, as peças voltam para a caixa.
Apesar
de erros e acertos, confessam que viveram.


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