segunda-feira, 12 de março de 2018

Neste Tempo de Cólera


Neste Tempo de Cólera faz uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) com o poema “Drummond”, cujos versos são formados por 20 títulos de livros do poeta itabirano. O poema “Apagão” é dedicado ao famoso poema “José”. O poema “Persona” faz referência ao poeta gauche e, além disso, a ideia de fazer o “Poema-Orelha” foi inspirada pela orelha do volume Poemas de 1959.

Neste Tempo de Cólera encerra uma trilogia poética. O livro segue a mesma toada da poesia social, ao apresentar poemas como “Neste Tempo de Cólera”, “O Grito”, “Jornal” e “Esperança”, que retratam a atualidade e o conflito político em voga no país.

A influência da poesia marginal se faz presente, pela primeira vez, em poemas como “Poesia Marginal”, “Separação”, “Mariana” e “Diálogo Íntimo”. A introspecção e o fazer poético continuam presentes em “Instante”, “Revelação”, “Perspectiva”, “Promessa”, “À meia-luz” e “Tempo Incerto”.  A trilogia poética composta por 64 poemas, em três livros, termina com “Tabuleiro da Vida”, ao usar o xadrez como uma metáfora.






Poema-Orelha

O leitor espreita o livro.
A orelha sussurra palavras.
Surpresa! Emerge uma voz.
O poeta muito revela, mas
algo ainda segue oculto.
O vasto ambiente, habitado
por poemas, retrata a
inquietação e o dia a dia.
Convencer não busca,
mas reflexão provoca.
A vida é uma travessia,
assim confessa o vivido
do Refúgio da madrugada,
Em meio à tempestade,
Neste Tempo de Cólera.
Fecha a trilogia escrita,
mas ainda fica na escuta
se haverá a sua leitura.



Neste Tempo de Cólera


Sumário

Instante
Apagão
A Rosa Oculta
Revelação
Neste Tempo de Cólera
O Grito
Perspectiva
Promessa
Jornal
Drummond
Poesia Marginal
Esperança
Separação
À meia-luz
A Persistência da Memória
Fait Divers
Tempo Incerto
Persona
Mariana
Diálogo Íntimo
Tabuleiro da Vida







Instante

Somos um instante no infinito,
ao acordar no mesmo dia e
ao ficar sentados frente à tela,
sem a aventura do desconhecido,
no dia atemporal já programado.

Fazendo o que quiser, sempre igual,
seguindo o mesmo caminho.
A sensação de vida nos deixa
desconectados, vivendo vidas alheias.
A realidade cotidiana distraída
pela celebridade construída.

Nosso tempo é consumido como
combustível, sem ser assumido.
Já esgotados, não somos nós
mesmos. Nossas máscaras são
rostos do passado, esculpidos
nas pedras do esquecimento.

Ignoramos as pequenas coisas,
os olhares sem conexão virtual.
Como seguidores, não lideramos
e nem escrevemos a própria história.




Apagão
Para José
E agora?
A rede caiu,
a luz apagou,
a conexão sumiu.
E agora?
Escreve anônimo,
zomba dos outros,
odeia e protesta?
E agora?

Está sem celular,
está sem mensagem,
está sem vida,
já não pode compartilhar,
já não pode curtir,
xingar já não pode,
não veio a energia
e tudo acabou.
E agora?

E agora?
Sozinho no escuro,
sem nada a fazer,
sem parede
para se encostar,
sem distração
que fuja da realidade,
você vai para onde?


A Rosa Oculta

Sem saudade e sem remorso,
da tua ausência ao meu redor,
não tenho pena de mim, ou outros sentimentos.

Do amor triste, ficou só a perda,
assim como do passado, só o carinho.
As raízes fundas de sofrimento
mergulharam no infinito.

Ao vencer a dor, permaneceu
presente um perfume oculto:
a beleza no jardim da natureza.



Revelação

Eu preparo um verso
ao caminhar por palavras
que distribuem segredos.

Não posso forçar a chave.
Devo permanecer com rosto
neutro, mas chego mais perto
para contemplar sua forma.

A melodia refugia-se
no conceito e impregna
o poder das palavras.

Não posso obrigar o poema
diante do poder do silêncio,
mas revelo sua forma
no espaço em branco.




Neste Tempo de Cólera

Neste tempo de cólera,
o ar contamina o pensamento.
O pacífico conflito de opiniões
torna-se um bélico confronto de ideias.
O isolamento piora a cabeça, pois
não recebe anticorpos da tolerância.

Doses homeopáticas de informação formam
o pensamento crítico e ampliam o conhecimento.
A divergência é saudável. O sectarismo, doença.

Poeta sem gênero, assim como anjo,
busca a voz interior para o debate.

O ouvir introspectivo ajuda
mais do que o falar extrovertido.



  


O Grito

Ouve-se grito na rua
Ouve-se grito em casa
Ouve-se grito no trânsito
Ouve-se grito na audiência
Ouve-se grito na rede social
Ouve-se grito na imprensa
Ouve-se grito no plenário
Ouve-se grito no debate
Ouve-se grito no templo

Fala-se alto na sociedade do grito.
Fere-se o diálogo, ofende-se a razão.
Desnudar-se do preconceito
é ouvir o outro, pausa no silêncio do diálogo.
A primeira pedra da filosofia é o silêncio.

Querer convencer com a verdade,
impô-la como socos, deixa a razão
humilhada, em inútil tiroteio verbal.

A poluição sonora perturba a mente.
A incerteza gera desejo de compartilhar.
A intransigência, a caça às bruxas.
Serve de escudo da insegurança,
diante do medo da reflexão.

As mãos apoiam o rosto como numa pintura.





Perspectiva

Tendo estado ocupado,
desce pelos dedos
um tempo branco.

As coisas e as palavras
seguem o mesmo ritual.
A noite e as casas dormem.

O sono não vem, mas o dia volta.
Abrir os olhos não é segredo.
Mudança oculta na realidade,
esconde-se, não corre risco.

Problema na infinitude
diante da vida finita.
Engano de perspectiva
seguir apenas o seguro.




  
Promessa
Para A. C. Secchin
Não tenho palavras para verso.
Dez sílabas dizem alguma coisa.
Corto e reflito, mas não impeço
que esta quadra seja imprecisa.

Devo buscar toda a seriedade,
mas a poesia tende a ser terna.
Procura a rima na eternidade,
no escuro, ao segurar a lanterna.

Falar alguma coisa que queria,
mas fatos, se impondo ao poeta,
deixam o desencanto na poesia.

Não há tempo, nem por decreto,
para terminar o oculto na gaveta,
nem chave para fechar o soneto.



  
Jornal

Contemplo páginas e pensamentos,
um ritual diário que me desloca
para junto da janela do mundo,
pela qual vejo acontecimentos.

Das cinzas do passado
emergem consequências,
não há como negá-las
e muito menos evitá-las.

Os olhos do cinzeiro são cinza
como a realidade do mundo.
A brasa que queima mostra
focos de incêndio no dia a dia.

Recortes feitos podem induzir a
interpretação, assim como a falta
de informação prejudica o julgamento.
Mas a omissão dos fatos é tão grave
quanto a ausência completa de ação.




Drummond

Há um claro enigma
no sentimento do mundo,
ao escrever alguma poesia
neste brejo das almas,
cuja rosa do povo
está na viola de bolso.

Escrever novos poemas,
a partir da lição de coisas,
é a vida passada a limpo
e a visita na paixão medida.

José, menino antigo,
é com o corpo que
amar se aprende amando,
o amor natural, apesar
das impurezas do branco.

Esquecer para lembrar,
numa reunião,
a falta que ama.





Poesia Marginal

Vários poetas, como Chacal,
estavam fora do meio habitual,
não escreviam no molde estrutural
estabelecido pelo padrão universal.

Procuravam uma poesia autoral,
ao não escrever da maneira usual.
Buscavam a linguagem coloquial
e mostravam uma inovação vital.

Produção poética com criativo visual,
durante metamorfose comportamental,
resultado de ruptura estética e cultural.

Faziam só divulgação manual,
neste difícil período editorial,
refletindo uma pressão social.






Esperança
Para Augusto dos Anjos

A esperança não cansa e não sucumbe,
vê sonhos e muita gente infeliz.
Da ilusão do mundo, não espera solução,
mas nas asas e no grito
enfrenta desalento e tormento,
não aceita sua morte na sentença.
Brada viva à glória futura da bendita crença.





Separação
Para Ana Cristina Cesar
Abro as cortinas.
Palpito as novidades.
A janela aberta,
como transparente escuridão,
forma sombra no papel.
Não toco na lembrança,
as cartas não mentem,
são espelhos da saudade.
A mão desliza e
a folha cai no chão.
O ar duro manobra
uma adivinhação.
Não quero a canção.



À meia-luz

Navegamos sem direção se uma
bruma beber todo o horizonte.
O poeta inveja a gaivota que
observa tudo do mar, abaixo
da luz e no alto do céu.

Não há como boiar sem a chance
de mergulho, ou fazer um rasante
em profundidade à beira do abismo
da alma. Refletir, no espelho do mar,
o sentimento daquilo que nos falta e
corta a distância em direção ao infinito.



A Persistência da Memória

Não tenho o sorriso da Monalisa
Não tenho o brinco de pérola de Vermeer
Não tenho o beijo de Gustav Klimt
Não tenho as meninas de Velázquez
Não tenho o almoço de Gustave Renoir
Não tenho o baralho de cartas de Cézanne
Não tenho a tarde de domingo de Seurat
Não tenho as impressões de Claude Monet
Não tenho a maçã frente ao rosto de Magritte
Não tenho o grito de Edvard Munch
Não tenho a noite estrelada de Van Gogh
Não tenho a última ceia de Da Vinci
Tenho apenas o tempo derretido de Dalí,
pois caminho sobre o mar de névoa de Friedrich.



Fait Divers

Tombou ladeira abaixo na curva da estrada. A carga embalada esparramou-se pelo áspero asfalto. Decepção das pessoas, nada para ser saqueado. Havia apenas informações e conhecimentos esparsos, em livros que ficaram abandonados ao relento e depois à chuva, por falta de atenção e de interesse. A pequena nota no jornal relatava o ocorrido, mas utilizando uma expressão francesa.


  

Tempo Incerto

Há uma dor no viver.
Do concreto da realidade
surge a consciência do limite.
Explicações vagas e circunstanciais
procuram o seu destino.
As inquirições sem respostas
e as mensagens criptografadas
vestem a nova realidade.
A linguagem oculta encontra
motivo até mesmo no silêncio.
Os gestos reduzem o retrato da realidade
como espelhos dos acontecimentos.
Descoberto o sentido do absurdo da existência.



Persona

O antigo poeta anárquico
se disfarça, durante o dia,
como funcionário autárquico
ao escrever apenas o que podia.

Não há como ser profeta
do que ocorre no dia a dia,
mas reflete e depois panfleta,
à noite, ao escrever o que queria.




Mariana

No fato
do ato
sem trato
Desa
      b
      a
      mento
              mostra retrato
                                   não do acaso
                                                      mas do descaso



Diálogo Íntimo

O poeta procura no dia
                           nos sonhos
                            no silêncio
                            nas palavras
                            nos pensamentos
                          

Entre dois versos                                  de um poema
                                   sentimentos




Tabuleiro da Vida

As peças saem da caixa.
Cada uma toma o seu lugar.
Joga-se de acordo com as regras.
Cada uma tem seus movimentos,
suas qualidades e seus defeitos,
suas virtudes e suas limitações.

Falta de entrosamento prejudica desenvolvimento.
Há livre arbítrio, mas limitado pelas circunstâncias.
Pensar em sacrifícios e antever o desdobramento.

Harmonia permite qualidade e ganho de tempo.
Dá muitas opções no início da jornada,
algumas possibilidades na metade da travessia,
mas há poucas escolhas no final do jogo.

Ao fim e ao cabo, as peças voltam para a caixa.
Apesar de erros e acertos, confessam que viveram.



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